Nerandomilaste: Novo Tratamento para Fibrose Pulmonar
Dr. Alexandre de Melo Kawassaki
Depois de dez anos sem novidades terapêuticas, a fibrose pulmonar ganha uma nova opção no Brasil. Entenda o que é o nerandomilaste, como ele age e o que essa aprovação significa para os pacientes.
Quem convive com fibrose pulmonar sabe o peso de ouvir que as opções de tratamento são limitadas. Durante uma década, dezenas de estudos clínicos tentaram encontrar novas alternativas — e praticamente todos falharam. Por isso, a notícia que chegou em julho de 2026 merece atenção.
A Anvisa aprovou o registro do nerandomilaste (nome comercial JASCAYD®) para o tratamento de adultos com fibrose pulmonar idiopática (FPI) e fibrose pulmonar progressiva (FPP). O Brasil está entre os primeiros países do mundo a autorizar essa terapia.
Neste artigo, explicamos de forma clara o que muda com essa aprovação. Boa leitura!
Por que essa aprovação é considerada um marco
As fibroses pulmonares formam um grupo de doenças em que o tecido do pulmão sofre um processo de cicatrização inadequado. O órgão, que deveria ser macio e elástico, torna-se rígido — e perde a capacidade de realizar as trocas gasosas de forma eficiente. O resultado é falta de ar progressiva, tosse e cansaço.
Até agora, o arsenal disponível para desacelerar essa progressão se resumia aos antifibróticos nintedanibe e pirfenidona, aprovados há cerca de dez anos. São medicamentos eficazes, mas com efeitos colaterais que podem levar pacientes a interromper o tratamento nos primeiros meses.
Nesse intervalo, mais de trinta estudos clínicos voltados a novos tratamentos para fibrose pulmonar não atingiram seus objetivos principais. O nerandomilaste é a primeira inovação em uma década para a FPI e em mais de cinco anos para a FPP a alcançar os resultados esperados.
Como o nerandomilaste funciona
O nerandomilaste é um comprimido de uso oral que age por um caminho diferente dos antifibróticos já conhecidos. Ele é um inibidor preferencial da fosfodiesterase 4B (PDE4B) — uma enzima presente nas células inflamatórias e estruturais do pulmão.
Traduzindo para o dia a dia: ao bloquear essa enzima, o medicamento aumenta uma substância dentro das células (o AMP cíclico) que ajuda a "desligar" dois processos ao mesmo tempo — a inflamação e a produção descontrolada de tecido cicatricial.
Ou seja, o nerandomilaste combina ação anti-inflamatória e antifibrótica em um único mecanismo. E, por ser seletivo para o subtipo PDE4B, tende a provocar menos náusea e desconforto do que medicamentos mais antigos da mesma família.
O que mostraram os estudos clínicos
A aprovação da Anvisa foi baseada no programa FIBRONEER™, composto por dois grandes estudos de fase III:
- FIBRONEER™-IPF, com pacientes com fibrose pulmonar idiopática;
- FIBRONEER™-ILD, com pacientes com fibrose pulmonar progressiva.
Juntos, os estudos envolveram mais de dois mil pacientes, acompanhados ao longo de 52 semanas. Os principais achados foram:
Menor perda de função pulmonar. O desfecho principal era a capacidade vital forçada (CVF), a medida de quanto ar o pulmão consegue mobilizar. Os pacientes tratados com nerandomilaste apresentaram declínio significativamente menor da CVF em comparação ao grupo placebo, lentificando a progressão da doença.
Benefício independente do tratamento de base. O efeito foi observado tanto em quem já usava um antifibrótico quanto em quem não usava — o que abre a possibilidade de uso combinado.
Boa tolerabilidade. As taxas de interrupção do tratamento por efeitos adversos foram próximas às do grupo placebo. Os efeitos mais comuns foram diarreia leve, náusea e cansaço.
Sinal favorável em mortalidade. As análises apontaram redução do risco de mortalidade em comparação ao placebo no grupo fibrose pulmonar progressiva, um desfecho historicamente difícil de demonstrar nessas doenças.
O que isso significa na prática para o paciente
Alguns pontos merecem ser ditos com clareza, para que a expectativa fique no lugar certo:
- Não é cura. O nerandomilaste desacelera a progressão da doença. As cicatrizes já formadas no pulmão continuam irreversíveis.
- É uma nova ferramenta, não uma substituição automática. A decisão sobre trocar, associar ou manter o tratamento atual é individual e deve ser tomada com o seu pneumologista.
- A tolerabilidade importa muito. Um medicamento só protege o pulmão se o paciente conseguir mantê-lo. Um perfil de efeitos colaterais mais ameno tende a favorecer a adesão a longo prazo.
- O diagnóstico correto continua sendo o ponto de partida. Nem toda fibrose pulmonar é idiopática, e definir com precisão o tipo de fibrose é o que determina qual tratamento faz sentido.
Quando o medicamento estará disponível no Brasil
A aprovação da Anvisa é uma etapa fundamental, mas não a última. O próximo passo é a definição de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Somente após a conclusão desse processo o medicamento poderá ser comercializado no país.
Vale acompanhar também as discussões sobre incorporação e cobertura, que costumam ocorrer em seguida.
Converse com o seu pneumologista
Se você ou alguém da sua família convive com fibrose pulmonar, esta é uma boa hora para revisar o plano de tratamento: confirmar o diagnóstico, avaliar como está a função pulmonar e discutir se a nova terapia pode fazer sentido no seu caso quando estiver disponível.
Depois de uma década de poucas novidades, ter uma opção a mais é motivo real de esperança — desde que acompanhada de perto por quem conhece a doença.
Ficou com alguma dúvida sobre fibrose pulmonar? Entre em contato conosco que ficaremos felizes em esclarecer para você.
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